sábado, 7 de novembro de 2009

Primeira (de muitas, espero) proposta de encenação

Imagine.

Um quarto imenso, abandonado há muitos anos (pode ser um grande galpão, trabalhado com cenografia. Talvez, com objetos gigantes). Um quarto que parece já ter sido de uma criança. Cheio de brinquedos quebrados, e com as paredes riscadas. Entre os brinquedos há um pequeno helicóptero, velho e enferrujado. O público é convidado a entrar (depois de pagar o justo valor pelo ingresso!), sendo previamente avisados de que cada objeto ali, cada desenho riscado na parede, tem um valor muito especial. "Cuidado onde pisa! Você pode destruir um sonho".

Um quarto que não vê pessoas há um bom tempo. Habitado apenas por insetos. "Cuidado com as carapanãs!", alerta alguém. As pessoas enxergam muito pouco, pois não há energia elétrica ali há muitos anos.

Ouve-se um barulho estrondoso de helicóptero. Uma forte luz invade o quarto pela janela, por onde entram dois velhinhos, carregando lanternas grandes, daquelas bem potentes. Estão ali, por uma missão muito especial: resgatar suas lembranças roubadas! A princípio, a platéia não os vê, vêem apenas as luzes das lanternas, que iluminam desenhos e dizeres enormes nas paredes.

Os dois personagens mostram-se muito emocionados, nervosos e com medo, por finalmente terem chegado até ali. Então, começam a recapitular todos os passos até então. Uma das lanternas se volta para um deles, que começa: "Eu acredito em seres encantados que nos visitam enquanto dormimos...". Explicam como descobriram que aquele quarto é o local para onde as fadas, duendes e helicópteros levam as lembranças roubadas. De repente, as luzes das lanternas falham. Outra luz se acende, no fundo da platéia. É a luz de uma lanterna, presa ao helicóptero de brinquedo. A platéia se surpreende, vendo a única luz do lugar voando sobre suas cabeças, com o som de helicóptero.

Momento de pânico. Os dois velhos se armam com seus inseticidas. Tentam desafiar o helicóptero, exigindo terem suas lembranças de volta. Mas uma forte luz se acende sobre eles! São surpreendidos por uma figura bizarra, saída de dentro de um dos móveis: uma carapanã (o acabamento visual seria pra parecer que uma pessoa pegou objetos normais, como uma capa, um óculos de mergulho, etc).

A partir de então, eles começam uma "batalha". O tempo todo, a carapanã tenta encontrar artifícios para fazê-los dormir, como canções de ninar, cafuné, etc. Depois de verem que os inseticidas não funcionam, eles tentam fazê-la confessar onde estão as lembranças, através de conversas, tentando jogar verde, essas coisas. Ao mesmo tempo, a carapanã tenta impedi-los de entrarem em contato com os objetos, pois sabe que esse contato trará as lembranças de volta. Mas ela falha, e um deles entra em contato com um objeto: uma caixinha de música (por exemplo), que vai levá-lo a uma lembrança esquecida, da infância. Ele tira a bailarina da caixinha, e do pé da boneca começa a escorrer areia.

A cena da lembrança acontece, e quando volta, aconteceu algo terrível: a carapanã conseguiu fazer o outro (o que contou a história da televisão) dormir - de boca aberta! É uma situação desesperadora. Nada pode fazê-lo acordar, agora. As luzes se apagam e volta a surgir o helicóptero de brinquedo, voando, como se fosse invadir a mente do velhinho. Então, o "herói" que sobrou acompanha o helicóptero, para o interior do cérebro do amigo.

Dá-se início a um novo sonho. E é o mesmo sonho, recorrente. Toca Beatles. Quando a pessoa vê onde está, ela é a própria televisão vermelha, e está no carrinho, sendo levada pelo velho, que é o mesmo ator que faz a carapanã. Ele aperta nos botões, fazendo a pessoa mudar de canal, de volume, etc. Ela fica aterrorizada ao ver a condição física na qual se encontra. Só pensa em uma coisa: "Preciso fazê-lo acordar desse sonho! Mas como?".

Bem, eu só pensei até aí. Mas enfim, vou tentar continuar...

Acontece (diferentemente do primeiro monólogo, que é apenas uma narração descritiva), a cena do menino correndo atrás do cara com o carrinho de cimento com a televisão vermelha (que, na verdade, é o outro amigo) em cima. O mesmo som de helicóptero do início da peça, bem forte, volta, mas dessa vez, com a ajuda da própria TV o menino os alcança. Os três atores se transformam em um helicóptero - cena apoteótica! - e vão voar até suas lembranças.

Traímos o espectador. A trama se rompeu, se partiu, e agora, entramos nos depoimentos mais delicados, engraçados ou não. Os personagens voltam à infância, expondo suas lembranças pessoais. As lembranças vão passando de monólogos isolados pra uma coisa interrelacionada, até se tornarem uma coisa só. Até aí, expomos todos os nossos principais argumentos.

E tudo termina com eles brincando, mesmo, controlando o helicóptero de brinquedo, brincando de fingir que são carapanãs, de dançar, etc. Uma coisa bem regressão, ode à infância mesmo, foda-se. =)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Dramaturgia das Pulsões?

Andei lendo um pouco à respeito e me pergunto se o que estamos fazendo não tem algumas semelhanças com dramaturgia das pulsões.

Dramaturgia das Pulsões


Autor: Felipe Chusyd[i] - firosyd@uol.com.br
Resumo

A atenção do dramaturgo ou do roteirista de ficção tem atração pelo acontecimento pontual, pelo factual que emerge da condição humana e de suas relações. Os personagens são apreendidos pelo seu olhar, cuja característica principal é o poder de profundidade ou corte. Uma espécie de retalho na performance do personagem em dada situação, o que irá proporcionar ao autor vê-lo em sua própria mente dançando e costurando uma trama que, no mais das vezes, ele sequer imagina. Disso nasce a simbiose entre um e outro. Uma aventura ao inconsciente humano, quase que de forma intercambiante.
Palavras-chave: Dramaturgia, Psicanálise, Inconsciente, Personagem, Diálogos.

(...)

Agora, no entanto, vamos nos ater ao processo microcósmico de desdobramento desses fatos ficcionais. Aliás, convém lembrar que, ficção, é uma realidade inventada. Mesmo fabulada, copiamos o modelo real conhecido pelos sentidos como forma ideal de se partir para o mundo da imaginação e criar, à feição de um demiurgo, situações e fatos dramáticos (aqui incluindo a comédia) que revelarão incidentes a personagens vinculados a uma ação interior em busca de alguma meta pessoal e intransferível.


Assim, dos fatos psicológicos, morais e sociais que geram o conteúdo de uma história, precisamos evoluir para outro estágio da fabulação, que podemos batizar de dramaturgia das pulsões. Mas, cabe salientar, que não objetivamos inventar apenas mais um nome a troco de nada, senão realçar a veia instintual por onde irão trafegar elementos essenciais da construção dramática de uma história dentro da qual ganharão amplo destaque as descrições de imagens, as ações, os comportamentos, as emoções e as falas de personagens na forma de anotações objetivas e claras que, ao final do processo, formará uma composição dramático-literário de nome Roteiro, cujo objetivo principal, se se tomar a sua razão de ser, será servir a uma produção audiovisual contando com outros artistas e técnicos que irão dar vida ao espetáculo, e estes são conhecidos como atores, produtores, diretores, figurinistas, cenógrafos, etc.

(...)

Na dramaturgia, o autor está sempre buscando uma relação sentimento-ação. Quer dizer, o personagem é o sujeito da ação em razão de algo subjetivo. Mesmo que advenha de um conflito explícito com algum outro personagem, o sujeito da ação interioriza o elemento causador da emoção e reproduz sua característica instintual, seu caráter menos ou mais impetuoso, de modo a revelar seu tipo de personalidade[v]. É um exercício afetivo-intelectivo em que o autor canaliza sua veia emocional ao conjunto intelectivo operante para, numa transferência adequada e ajustada, sentir seu personagem em ação, dentro dele, como se ele autor fosse um corpo sempre disponível para ser ocupado por uma entidade sensível e atuante, motivada e desejosa de conseguir que sua razão de ser ou existir prevaleça.
(...)
 
O trabalho de desenvolvimento de um tecido que forma um argumento dramático propicia ao autor tomar pé das situações e fatos que vão tecendo a teia dramática de sua história, mas, com uma dramaturgia instintual, o que prevalece é tomar consciência do que ocorre com o íntimo dos personagens em ação, investigando suas pulsões para que seus contrastes simbólicos transpareçam de modo inequívoco, o que vai dar margem a interpretações diferenciadas a partir das cenas representadas pelos sujeitos da ação dentro de um hipotético roteiro.


Convém dizer que a dramaturgia das pulsões pode se valer de representações qualitativas no desenrolar da ação dramática. Em outros termos, quando desdobramos os fatos a partir de enfoques microcósmicos como a cena propriamente dita, estamos andando em um terreno conhecido, ou seja, no terreno humano, das emoções, do intelecto e dos instintos. Pode ser difícil separar essas áreas quando enfocamos os personagens em ação, mas é possível perceber os graus variáveis pelos quais esses elementos se ajustam quando pensamos no processo dinâmico que é a própria vida da personalidade frente às situações com se depara.

Poderíamos dizer, neste caso, que a situação dramática é como uma cadeia de eventos da qual se sobressaem aspectos da humanidade em seu vigor instintual, emocional e intelectual.

(...)
 
Interessante notar que a dramaturgia das pulsões, quando analisadas a posteriori, ganham um valor especial, muitas vezes revelando o absurdo da condição humana em suas contradições e limitações, como acontece de fato para a grande maioria da raça humana, refém de suas paixões, comodidades, idiossincrasias, hábitos e instintos.
Mas para quem quer tomar esses processos criativos de desdobramento de fatos ou situações dramáticas, deve perceber que a própria natureza do conhecimento humano e psicológico prevalece na reprodução dos acontecimentos dramáticos. Eles pontuam desejos e necessidades prioritárias no momento da iluminação dos personagens atuantes. Naquela fração de tempo em que eles vivem há desejos ou pulsões atuantes e determinantes de novas situações e conseqüências. Como o é a própria tessitura de uma telenovela, por exemplo, pela qual os acontecimentos já trazem consigo as conseqüências de sua incidência. São pulsões da vida, naturais e desencadeadoras de novos fatos pontuais que vertem os sentimentos, pensamentos e desejos de seus personagens.

  Para ver o texto todo clique AQUI!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Helicóptero-fantasma

Trem-fantasma

"Depois q a gente cresce, as pessoas nos fazem crer q perdemos uma inocencia q nunca tivemos"
(Giovana, numa conversa de MSN)

Quando o ser humano está no início do seu (nunca acabado) processo de formação - ou seja, a infância - qual a sua relação com o medo? Como esse sentimento se constitui, se constrói e desconstrói? Entre as muitas coisas que a vida monta e desmonta em nós durante o tempo, estão os medos. Vamos crescendo e sendo educados a ter ou não ter medo de certas coisas, por meio de padrões pré-estabelecidos. Por exemplo: medo de cobra, medo do demônio, medo de insetos.

Uma das coisas que as crianças têm de fantástico é que, até certo momento, essas convenções não estão definidas. Na infância, a gente não sente medo de coisas que os adultos sentem; e construímos medos nossos, só nossos, pessoais e significativos.

Assim, vemos muitas crianças que se divertem brincando com insetos ( e, algumas vezes, assustando os adultos com isso!), sendo que a mesma criança, durante a vida, vai aprender que insetos são nojentos, e que se deve manter distância deles, ou matá-los. Da mesma forma, antes de ceder a essas convenções, a criança pode desenvolver um medo terrível por uma coisa trivial e comum, como um quadro na parede.

Crescemos, e esquecemos o porquê de alguns medos, deixando-os de lado. Em compensação, desenvolvemos outros. Aí, quando se vê uma criança com medo de algo besta, como uma máscara de palhaço, não se compreende a profundidade de significado que isso pode ter. Crianças são constantemente subestimadas. Pode-se pensar: "Ô, tadinho! Ainda não descobriu o que a vida realmente tem de perigoso". Será que sabemos, de fato, o que é perigoso?

Quando criança, eu dormia de frente para a janela, e podia ver a silhueta de roupas penduradas do lado de fora. Aquilo me deixava num estado de angústia, porque muitas vezes, eu enxergava alienígenas nas roupas. Morria de medo que um alienígena aparecesse na minha janela. Não tinha tanto medo em outros momentos do dia, e em outros lugares... mas tinha muito medo, especialmente, vendo aquela janela, sob aquele ângulo, antes de dormir.

O porquê disso não sei. Mas sinto que o medo, assim como outros sentimentos, na infância, me fazia ser muito mais eu mesmo. Não havia cascas desenvolvidas pra me proteger: o miolo do ser estava praticamente exposto. Os alienígenas me faziam ser eu. Hoje, eu sou só uma construção.



Crescer é perder.
  

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

No fundo, bem lá no fundo, a gente não muda nada!

A vida toda a gente costuma escutar que a experiência adquirida ao longo dos anos faz a gente amadurecer, que com o tempo a gente vai aprendendo a olhar menos pro nosso umbigo e mais para os outros, que a gente aprende a esperar o tempo certo das coisas acontecerem, que a gente aprende a aceitar aquilo que a gente não pode moldar de acordo com o nosso ideal. Eu, sinceramente, tenho cá minha dúvidas.
Cada vez mais eu acredito que a única mudança que ocorre é apenas na forma como buscamos realizar nossos desejos primordiais e que eles permanecem inalterados por toda a nossa vida.
Amadurecimento na verdade é fazer coisas diferentes das que faziamos quando éramos crianças pra atingir os objetivos que carregamos desde lá.
O que acontece é que quando a gente cresce os caminhos que somos obrigados a percorrer para atingir os nossos imutáveis objetivos se tornam mais longos, sendo frequentemente necessário manter velados tais caminhos e principalmente o seu fim - o desejo alcaçado -, negando uma postura infantil e fingindo ser um adulto que no fundo nunca seremos. A vida adulta é portanto uma utopia e nossas longas pernas de adulto foram feitas única e exclusivamente para podermos percorrer esse caminho que se alongou desde a infância.
Se aos 5 anos eu apenas entortava angelicalmente minha cabeça para o lado e conseguia a atenção e amor de todos, aos 25 anos eu vou fingir que não ligo para a opinião dos outros, pra quem sabe assim eles me admirarem por julgarem que não preciso deles.
Se antes eu dizia na cara da minha amiguinha de maternal que ela era chata por não me emprestar seus brinquedos, hoje quando uma amiga me nega um favor eu digo a ela que compreendo a sua postura e cinco minutos depois começo a falar mal dela para qualquer amigo em comum.
Se antes eu disputava aos tapas os lugares próximos a professora na sala de aula, hoje eu boicoto de variadas formas meu colega de empresa até que eu atinja um cargo melhor do que o dele.
Todo adulto é um mentiroso.
A verdade é que ninguém amadurece!
Então, vamos todos assumir a nossa condição de crianças birrentas e vamos sair para as ruas trajando o uniforme que nós convém: a fralda.
Vamos todos urinar e defecar em paninhos felpudos e esperar que nossas mães venham nos trocar!
Vamos implorar, com choros e beicinhos, que nos amem e nos alimentem!
Vamos ser mais sinceros com a vida!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Princípios Básicos no Teatro

Questionar condutas estabelecidas e validadas como as mais adequadas dentro da sociedade em que vivo sempre foi uma constante em minhas ações. Sempre quis entender o sentido do permitido, e o pavor de algumas pessoas (das quais não me excluo) diante do que não é consenso de aceitação.
Dentre as possibilidades de ações questionadoras da minha realidade social encontra-se o teatro.
Quando penso no teatro em que desejo trabalhar, penso nele como uma poderosa ferramenta de questionamento dos valores e normas sociais.
O teatro, tal qual um espelho, nos mostra um recorte da realidade. No entanto, ele tem o potencial de ir além de um simples reflexo de um espelho comum, pois pode ser manipulado de modo a tentar tornar evidente ao espectador, aspectos de sua realidade que ele não consegue enxergar tão facilmente em seu cotidiano.
Contudo, penso que antes de utilizar o teatro como uma ferramenta de questionamento da realidade, seria interessante o questionamento de algumas normas frequentemente observadas como estabelecidas dentro dele próprio.
Assim sendo, destaco a seguir alguns pontos referentes ao que se têm comumente como princípios básicos no teatro.

Princípios variam de acordo com o estilo? Ou existem princípios básicos comuns a todos os estilos?
  • Não falar de costas -> o sentido estaria no fato de que o rosto seria mais expressivo do que as costas, ou estaria relacionado a projeção da voz?
  • Manter os elementos cênicos (cores, luz, objetos e atores) distribuidos de forma a manter um equilíbrio estético.
  • Energia intencionalizada -> não disperdiçar energia em ações que "não comuniquem" (criação de ambiente artificial).
  • O mais importante é a reação do ator e não a sua ação -> ajuda no controle da ansiedade.

Um teatro que experimente brincar com estes princípios seria uma excelente oportunidade de investigação da validade dos mesmos. Então, assim como as crianças que utilizam as brincadeiras como forma de reconhecimento e experimentação das normais sociais, vamos brincar de fazer teatro?