Se essa rua
Se essa rua fosse minha
Eu mandava
Eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas
Com pedrinhas de brilhantes
Para o meu
Para o meu amor passar
Nessa rua
Nessa rua tem um poste
Que se chama
Que se chama solidão
Dentro dele
Dentro dele mora um anjo
Que roubou
Que roubou meu coração
Durante muito tempo quando criança eu passei achando que tinha um anjo que morava dentro de um poste. Imaginava, numa rua escura, um poste com um buraco e que lá dentro tinha um rosto que me olhava. Às vezes o rosto era do Gonzo (Muppets). Era uma das coisas mais assustadoras da minha infância. Essa imagem se repetia em sonho, o meus sonho recorrente: Eu, minha mãe e meu irmão no zoológico, um lugar escuro e úmido como aquela rua da música, em algum momento eu via um muro que era a cela de algum animal, e nela tinha um buraco aonde eu enfiava a mão, eu nunca via o que tinha lá, mas eu sabia que era aquele rosto do poste, talvez o Gonzo. Eu acordava chorando, não sei mais porque.
Vocês viram minha infância? Estou procurando pelo mundo de onde venho Porque eu tenho procurado Nos "achados e perdidos" do meu coração Ninguém me entende... Eles vêem isso como estranhas excentricidades Porque eu fico por aí brincando Como uma criança, mas me perdoem...
As pessoas dizem que eu não estou bem Por eu amar coisas tão simples Tem sido o meu destino para compensar Uma infância que eu nunca conheci
Vocês viram minha infância? Estou procurando pela beleza na minha juventude Como piratas e sonhos de aventura De conquistas e reis nos seus tronos
Antes de me julgar, Tente mesmo me amar Olhe dentro do seu coração e pergunte Vocês viram minha infância?
As pessoas dizem que sou estranho desse modo Por eu amar coisas tão simples Tem sido o meu destino compensar Uma infância que eu nunca conheci
Vocês viram minha infância? Estou procurando pela beleza na minha juventude Como histórias fantásticas para contar Os sonhos que eu ousaria, me olhem voando...
Antes de me julgar, Tente mesmo me amar A juventude dolorosa que eu tive
( Atmosfera de sonho. Música de picadeiro. Uma mulher entra arrastando uma caixa, dentro da caixa um homem. O diálogo inteiro acontece como um número de circo em que espadas são enfiadas na caixa. as espadas aparecem em cena uma por vez, caindo de uma árvore no decorrer da cena)
Mulher: Já acordou?
(Finca uma espada na caixa)
Homem: Já.
Mulher: Vem tomar café.
(Finca uma espada na caixa)
Mulher: Vai esfriar, menino.
(Finca uma espada na caixa)
Mulher: Ai esse menino me mata. Já tomou banho?
(Finca uma espada na caixa)
Homem: Já.
Mulher: Esfregou o joelho?
(Finca uma espada na caixa)
Homem: Sim
Mulher: E o umbigo? Esqueceu?
(Finca uma espada na caixa)
Homem: Não.
Mulher: Não tá esquecendo nada?
(Finca uma espada na caixa)
Homem: Não.
Mulher: Mochila?
(Finca uma espada na caixa)
Homem: Tá aqui.
Mulher: Lanchinho?
(Finca uma espada na caixa)
Homem: Tá aqui.
Mulher: E as notas?
(Finca uma espada na caixa)
Homem: Tão aqui.
Mulher: Um sete?
(Finca uma espada na caixa)
Homem: É.
Mulher: Você quer me matar! Você não está estudando!
(Finca uma espada na caixa)
Homem: Matemática é difícil.
Mulher: Nada de especial de natal, mocinho!
(Finca uma espada na caixa)
Homem: Por favor, por favor, por favor.
Mulher: Aonde você pensa que vai? Aonde você pensa que vai?
(Finca uma espada na caixa)
Homem: Sair.
Mulher: Com o vestibular ai na porta?
(Finca uma espada na caixa)
Homem: É.
Mulher: Mas é pra me matar! Depois tá aí chorando. Não vem dizer que eu não avisei!
(Finca uma espada na caixa)
Homem: Não.
Mulher: Não volta tarde!
(Finca uma espada na caixa)
Homem: Talvez.
Mulher: Isso são horas?
(Finca uma espada na caixa)
Homem: Talvez.
Mulher: Ai, meu Deus, não corta mais o cabelo...
(Finca uma espada na caixa)
Homem: Eu corto.
Mulher: Não faz mais a barba...
(Finca uma espada na caixa)
Homem: Eu faço.
Mulher: Não aparece mais aos domingos...
(Finca uma espada na caixa)
Homem: Apareço.
Mulher: Você quer que eu morra!!! (Finca uma espada na caixa)
(Uma mulher cai da árvore das espadas. Fim da cena.)
Este é um video só pra lembrar do número de mágica:
Ele tinha nascido e não era mais do que um pedaço do céu. Como uma boa mãe que se preze tratou das providências de urgência, foi ao porão ainda cheia das dores de parir e do orgulho de filho pronto, feito, sem nenhum dedo, ou orelha, ou braço faltando (como ela era boa naquilo), e buscou no meio das coisas empoeiradas de porão uma caixa. Lixou bem a madeira pra que nenhuma farpa de perigo restasse, limpou, e forrou com jornal. Então pôs o bebê lá dentro, o único depois de tanto tempo de espera. Se pudesse mesmo botava na barriga outra vez, pensou.
Daí que o tempo passa, né?! E passou. O menino era bem gordinho a princípio, visto que não se podia crescer pra cima, então ele tratava de crescer pros lados e em profundidade que era por onde dava. Uma vez me falaram das árvores e funcionou na minha cabeça como uma dessas descobertas que não se esquece, foi dito assim: " As árvores crescem pra cima" e desde então eu sei meio significado da vida, o menino da caixa deve saber do resto.
Daí que o tempo passa, né?! E o menino virou homem, ou algo que lembrasse um homem, sabe aquelas dores de amor que a gente vai engolindo, e engolindo ao longo da vida e vai abarrotando a garganta?! O homem era assim. Ele nunca amara ninguém além da mãe porque também não havia nunca visto outro alguém que não a mãe, às vezes aparecia algum tipo de inseto no armário, que era onde a mãezinha o guardava, e ele podia conversar, mas nunca amara nenhuma dessas criaturas, ele as catava quando passavam por cima da caixa, e enfiava o bicho em um dos cantos do próprio corpo, exprimia até que a barata ou aranha não pudesse mais se mexer dali, e ali ficava, numa das dobras do seu corpo embolotado, foi assim que ele aprendeu a brincar, quem vai dizer que estava errado?
Ás vezes, mas só ás vezes, ele odiava aquela mulherzinha pequena, agora então, já velha e meio suja que sempre lhe cuidou, não sabia por quê mas a odiava. Depois passava porque sempre que aparecia uma coceira aonde ele não alcançava ela estava lá pra coçar com aquelas unhas grandes e dedos compridos, muito diferente dele, era bom a beça, aí ele ficava feliz e amava ela de novo.
Daí que o tempo passa, né?! Um dia a velha mãe sentiu-se mau e resolveu dormir mais cinco minutos antes de se levantar e acordar o "menino", dormiu e não acordou. Quando já era de noite a vizinhança começou a se incomodar com o cheiro, se viva ela já não cheirava tão bem. Foi que dali pra mais tarde apareceu polícia, alguns parentes afastados, funerária e coisa e tal, não teve velório, ela não tinha gente conhecida o suficiente disposta a ficar pra um velório. Os parentes que não a conheciam senão por nome dividiram algumas coisas de valor na casa, depois trancaram tudo e puseram uma placa de Vende-se na porta, alguns meses mais tarde apareceu alguém pra limpar o lugar, mas eu não sei dizer se algum dia o armário voltou a ser aberto.
As crianças lá da rua que até hoje falam em casa assombrada, jogam pedra e correm, rindo.
Enumero aqui coisas que já citamos, mas ainda não desenvolvemos... Podemos resgatá-las como indutores para a criação de cenas, textos, célular dramatúrgicas, etc. Cada qual a seu tempo.
-Pessoas caindo de árvores -Silêncio torturador na família -Sonho homem na caixa, mãe não deixa crescer -Sobre o Deus assassino, e os palavrões -Universo paralelo imaginário -Barbie "realista"
Termo originado do grego "asa em parafuso". Definição dada à aeronave que produz suas reações aerodinâmicas (tração e sustentação) por meio de uma asa rotativa denominada rotor.