terça-feira, 24 de novembro de 2009

Cena

( Atmosfera de sonho. Música de picadeiro. Uma mulher entra arrastando uma caixa, dentro da caixa um homem. O diálogo inteiro acontece como um número de circo em que espadas são enfiadas na caixa. as espadas aparecem em cena uma por vez, caindo de uma árvore no decorrer da cena)

Mulher: Já acordou?

(Finca uma espada na caixa)

Homem: Já.

Mulher: Vem tomar café.

(Finca uma espada na caixa)

Mulher: Vai esfriar, menino.

(Finca uma espada na caixa)

Mulher: Ai esse menino me mata. Já tomou banho?

(Finca uma espada na caixa)

Homem: Já.

Mulher: Esfregou o joelho?

(Finca uma espada na caixa)

Homem: Sim

Mulher: E o umbigo? Esqueceu?

(Finca uma espada na caixa)

Homem: Não.

Mulher: Não tá esquecendo nada?

(Finca uma espada na caixa)

Homem: Não.

Mulher: Mochila?

(Finca uma espada na caixa)

Homem: Tá aqui.

Mulher: Lanchinho?

(Finca uma espada na caixa)

Homem: Tá aqui.

Mulher: E as notas?

(Finca uma espada na caixa)

Homem: Tão aqui.

Mulher: Um sete?

(Finca uma espada na caixa)

Homem: É.

Mulher: Você quer me matar! Você não está estudando!

(Finca uma espada na caixa)

Homem: Matemática é difícil.

Mulher: Nada de especial de natal, mocinho!

(Finca uma espada na caixa)

Homem: Por favor, por favor, por favor.

Mulher: Aonde você pensa que vai? Aonde você pensa que vai?

(Finca uma espada na caixa)

Homem: Sair.

Mulher: Com o vestibular ai na porta?

(Finca uma espada na caixa)

Homem: É.

Mulher: Mas é pra me matar! Depois tá aí chorando. Não vem dizer que eu não avisei!

(Finca uma espada na caixa)

Homem: Não.

Mulher: Não volta tarde!

(Finca uma espada na caixa)

Homem: Talvez.

Mulher: Isso são horas?

(Finca uma espada na caixa)

Homem: Talvez.

Mulher: Ai, meu Deus, não corta mais o cabelo...

(Finca uma espada na caixa)

Homem: Eu corto.

Mulher: Não faz mais a barba...

(Finca uma espada na caixa)

Homem: Eu faço.

Mulher: Não aparece mais aos domingos...

(Finca uma espada na caixa)

Homem: Apareço.

Mulher: Você quer que eu morra!!! (Finca uma espada na caixa)

(Uma mulher cai da árvore das espadas. Fim da cena.)


Este é um video só pra lembrar do número de mágica:

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Texto baseado em sonhos recorrentes

Ele tinha nascido e não era mais do que um pedaço do céu. Como uma boa mãe que se preze tratou das providências de urgência, foi ao porão ainda cheia das dores de parir e do orgulho de filho pronto, feito, sem nenhum dedo, ou orelha, ou braço faltando (como ela era boa naquilo), e buscou no meio das coisas empoeiradas de porão uma caixa. Lixou bem a madeira pra que nenhuma farpa de perigo restasse, limpou, e forrou com jornal. Então pôs o bebê lá dentro, o único depois de tanto tempo de espera. Se pudesse mesmo botava na barriga outra vez, pensou.
Daí que o tempo passa, né?! E passou. O menino era bem gordinho a princípio, visto que não se podia crescer pra cima, então ele tratava de crescer pros lados e em profundidade que era por onde dava. Uma vez me falaram das árvores e funcionou na minha cabeça como uma dessas descobertas que não se esquece, foi dito assim: " As árvores crescem pra cima" e desde então eu sei meio significado da vida, o menino da caixa deve saber do resto.

Daí que o tempo passa, né?! E o menino virou homem, ou algo que lembrasse um homem, sabe aquelas dores de amor que a gente vai engolindo, e engolindo ao longo da vida e vai abarrotando a garganta?! O homem era assim. Ele nunca amara ninguém além da mãe porque também não havia nunca visto outro alguém que não a mãe, às vezes aparecia algum tipo de inseto no armário, que era onde a mãezinha o guardava, e ele podia conversar, mas nunca amara nenhuma dessas criaturas, ele as catava quando passavam por cima da caixa, e enfiava o bicho em um dos cantos do próprio corpo, exprimia até que a barata ou aranha não pudesse mais se mexer dali, e ali ficava, numa das dobras do seu corpo embolotado, foi assim que ele aprendeu a brincar, quem vai dizer que estava errado?
Ás vezes, mas só ás vezes, ele odiava aquela mulherzinha pequena, agora então, já velha e meio suja que sempre lhe cuidou, não sabia por quê mas a odiava. Depois passava porque sempre que aparecia uma coceira aonde ele não alcançava ela estava lá pra coçar com aquelas unhas grandes e dedos compridos, muito diferente dele, era bom a beça, aí ele ficava feliz e amava ela de novo.
Daí que o tempo passa, né?! Um dia a velha mãe sentiu-se mau e resolveu dormir mais cinco minutos antes de se levantar e acordar o "menino", dormiu e não acordou. Quando já era de noite a vizinhança começou a se incomodar com o cheiro, se viva ela já não cheirava tão bem. Foi que dali pra mais tarde apareceu polícia, alguns parentes afastados, funerária e coisa e tal, não teve velório, ela não tinha gente conhecida o suficiente disposta a ficar pra um velório. Os parentes que não a conheciam senão por nome dividiram algumas coisas de valor na casa, depois trancaram tudo e puseram uma placa de Vende-se na porta, alguns meses mais tarde apareceu alguém pra limpar o lugar, mas eu não sei dizer se algum dia o armário voltou a ser aberto.

As crianças lá da rua que até hoje falam em casa assombrada, jogam pedra e correm, rindo.

Meu pai, eu, meus filhos, meus netos... ninguém sairá impune!

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Desenvolver

Enumero aqui coisas que já citamos, mas ainda não desenvolvemos... Podemos resgatá-las como indutores para a criação de cenas, textos, célular dramatúrgicas, etc. Cada qual a seu tempo.


-Pessoas caindo de árvores
-Silêncio torturador na família
-Sonho homem na caixa, mãe não deixa crescer
-Sobre o Deus assassino, e os palavrões
-Universo paralelo imaginário
-Barbie "realista"

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

3º Encontro - Notas bloquinho

Cachorro tem no mundo as liberdades humanas da imaginação da criança, é antropomorfizado.

Spike se destaca dos outros cães, é mais humano como o cara que é diferente, esquisito ou por ser protagonista no olhar da criança.

Crianças agem e pensam "como adultas", inclusive com as inseguranças e problemas da vida

Adultos se identificam mais vendo até pelo fato da roupagem ingênua das coisas

Teatro dentro do cinema (e ao contrário?)

Infância: ñ inocente
medo do desconhecido

_ Não acredito em paraíso infantil

Adulto expondo seus medos p/ criança

Expressão neutra da criança (Haroldo)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

2º Encontro - Notas do bloquinho

  • Pessoas em árvoras caindo
  • Visualidade: Eletrodomésticos/ animais/ comida (mangueira d'água)
  • Princípios do Clown
  • Lembranças: - Giovana: crianças corrente pra prova
                              - Haroldo: crianças passam perfume pra envenenar a professora
  • Criança Deficiência
  • Criança/ Estudo/ Escola/ Pais
  • Família silêncio
  • Sonho homem na caixa, mãe não deixa crescer
  • Religião
  • Aninha pai/ filho
  • Morte avós, Deus assassino
  • Criança palavrão
  • Lições
Para ver:
- Charlie Brown
- Cría cuervos

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Sobre Relâmpago, Theflash e Corisco

Eram três as tartatugas, assim como éramos três eu, meu irmão e a Andreneide, como são três neste grupo de atores que mais escrevem que outra coisa, três como as hélices de um helicóptero.

Deixando a numerologia de lado, o que importa é que elas fugiram. E quando se trata de uma busca é importante começar do início.
Relâmpago gostava de se esconder embaixo do fogão, Theflash cuidava de explorar toda a redondeza da fazenda como que sempre de vigília para em caso de perigo defender nossas terras, já Corisco só Deus sabe onde ela ia, do mundo das tartaguras eu não sei muita coisa mas num estudo minucioso das imperfeições do casco de um bebê tartaruga uma criança podia ver: Corisco era uma criatura que vivera muito mais do que de fato aparentava, como se tivesse guardado na cabeça a memória de todos os antepassados tartarugos até então. Aí foi assim, um dia meu pai disse:

_ Relâmpago, Theflash e Corisco fugiram.
_ Pra onde?
_ Não sei, minha filha, quando eu vi elas já estavam no portão.

Da porta pra fora da minha casa havia alguns metros de grama bem verde antes da cerca que não deixava os cães fugirem, cerca essa que de nada adiantaria pra três filhotes de tartaruga que cabiam todas juntas na palma da mão de um adulto não muito grande, depois dessa cerca vinha um caminho de terra que deveria ter, imagino eu, 500 metros até o portão da fuga. Anos eu passei me perguntando: Pra onde diabos elas foram? Por que foram? Não as amava o suficiente? Não tinham espaço suficiente? Os hectares de terra eram tantos que elas poderiam levar várias vidas de tartaruga percorrendo sem se intediar. No fundo eu acho mesmo que foi Corisco. Ela liderou a rebelião, nada poderia comportar Corisco. Imagino que o caminho que traçaram neste mundo não foi pequeno ao longo desses anos, a essa altura não devem estar mais perto do que Marte a não ser que tenham ido em direção ao Sol, mas duvido muito, Relâmpago era sensível demais ao calor, gostava do chão frio de debaixo do fogão.

Se alguma de vocês vir este blog saibam que eu espero que estejam bem, minhas queridas. Não estou mais zangada. Podem voltar quando quiserem. Eu entendo que as coisas foram feitas de três e não havia espaço para mim na fuga. Escrevam sempre que puderem!

                                         
Com amor, Mamãe.